14 janeiro 2007

Carta de Agostinho a um jovem...

Querido amigo,

Eu não fui, enquanto jovem, nem melhor nem pior do que a maioría... Não me dedicava a abusar das pessoas, mas também não estava disposto a que abusasem de mim... pode dizer-se... que era mais inquieto do que a media... Já desde os primeiros anos do colégio não me conformava facilmente: queria saber o que havía por trás... que sentido tinha tudo isto... E durante trinta años andei um lado para o outro perguntando, olhando, comparando, sentindo...

Nesse tempo soube o que era ambicionar uma posição... chegar a ter um futuro assegurado... provei os frutos da sensualidade e, desde logo, não passei à história da Igreja como um santo tótó... Conheci o que significa amar e ser amado por uma mulher... o orgulho de ser pai... experimentei assombrado o quão profunda pode ser uma amizade... Com o coração na boca, pedía cada vez mais: mais felicidade... mais prazer... mais verdade... mais... mais...

Então chega uma idade na vida em que te dizem: "Pois já não há mais... e se queres ser maduro, habitua-te a contentar-te... a conformar-te com o que há, a ser realista"... A sociedade comúm está cheia de gente "madura", que sabem conformar-se com o que têm, incluíndo esse pouquito de rebeldía que os tempos e o bom gosto permitem... Eu... decidi não conformar-me... pedi mais... E... no meio de uma crise geral, em que não sabía para onde caminhar, descubri de uma vez por todas que o meu coração tinha sido feito para receber o Amor que fez o amor... e que estaría inquieto até descansar nele...

A minha mulher, o meu filho, os meus livros, os meus amigos... tudo estava ao meu alcance e era amado por mim... mas tudo isto era insuficiente sem Deus, porque só com Deus é que tudo fazia sentido: a vida e a morte, e o amor e a amizade e a verdade e o perdão dos enemigos e a honra e a pobreza... Essa foi a minha experiência... Não é poesía... nem vontade de cumprir preceito... Mentiría se o contasse de outra forma...

Nos meus livros, especialmente nas "Confissões", tens escrito, pela minha mão, o meu caminho, que foi o que me aconteceu... Claro que não te vou pedir que tu... que es diferente de mim... o repitas... Pode ser... (pode ser...), que tu sejas dos que não pedem mais à vida... Então, tudo isto te parecerá uma estupidez... mas também pode ser que o que acabas de ler te soe familiar... que também tu estejas a procura aqui e alí, e te sintas hoje cheio de amor e amanhã de vazío...

Escrevo esta carta para ti, para a animar-te à inquietude... a que continues à procura... para que não te rendas ainda... ainda que tudo te impulse a dizer "desisto"... para que sejas em todos os momentos da tua vida honrado contigo mesmo... E se não encontras a Deus, não importa: ele encontrar-te-á a ti... Eu sei que não é fácil, tal como estão as coisas, falar de Deus... Para muita gente, desgraçadamente, Deus não é hoje uma opção pessoal senão um costume... Mas Deus é a tua profundidade... não lhe fujas assim, sem mais nem menos... porque estás a fugir do centro do teu ser...

E se queres ter a certeza de não estar a falar contigo mesmo, de não estares a criar um deus à tua imagem e semelhança... aí está Deus apresentado pelo Jesus do Evangelho, homem como nós, com palavras como as nossas, com uma mensagem social exigente, com uma ética que não são palavras ocas, Deus e homem como os amigos... Provavelmente depois queiras comunicar a tua experiência aos outros... e virá logo a Igreja, uma dura realidade onde às vezes só se reconhece o Evangelho... Mas, acaso temos de abandonar uma mansão só porque existem algumas louças partidas?

Enfim... aconselhar sempre foi um assunto delicado... Tu vives quando o Cristianismo leva já 2006 anos de vida... já pisou muito alcatrão... houve muitos outros testemunhos... De mim, só te posso dizer como despedida... que me fez ditoso quem me fez...

Sorte amigo... o que te escuta não está fora de ti... Não somos grande coisa cada um de nós, mas... ainda que alguém opine o contrário, fomos criados para ser felizes... Desejo-te pois... que haja felicidade na obra que se representa no teatro do teu peito... pequeno teatro... mas Deus é o principal espectador... canta e caminha...

Agustín,
aquele do coração inquieto...

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